Manuscrito de um Sacristo, de Machado de Assis 
 
Fonte: 
ASSIS, Machado de. Volume de contos. Rio de Janeiro :  Garnier, 1884. 
 
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 MANUSCRITO DE UM SACRISTO 
 
I 
 
  . . . . . . . . . . . . . . Ao dar com o padre Tefilo falando a uma senhora, ambos 
sentadinhos no banco da igreja, e a igreja deserta, confesso que fiquei espantado. Note-se 
que conversavam em voz to baixa e discreta, que eu, por mais que afiasse  o ouvido e me 
demorasse a apagar as velas do altar, no podia apanhar nada, nada, nada. No tive remdio 
seno adivinhar alguma coisa. Que eu sou um sacristo filsofo. Ningum me julgue pela 
sobrepeliz rota e amarrotada nem pelo uso clandestino das galhetas. Sou um filsofo 
sacristo. Tive estudos eclesisticos, que interrompi por causa de uma doena e que 
inteiramente deixei por outro motivo, uma paixo violenta, que me trouxe  misria. Como 
o seminrio deixa sempre um certo vinco, fiz-me sacristo aos trinta  anos, para ganhar a 
vida. Venhamos, porm, ao nosso padre  e  nossa dama. 
  
  
II 
 
  Antes de ir adiante, direi que eram primos. Soube depois que eram primos, nascidos 
em Vassouras. Os pais dela mudaram-se para a Corte, tendo Eullia ( o seu nome) sete 
anos. Tefilo veio depois. Na famlia era uso antigo que um dos rapazes fosse padre. Vivia 
ainda na Bahia um tio dele, cnego. Cabendo-lhe nesta gerao envergar a batina, veio para 
o seminrio de So Jos, no ano de mil oitocentos e cinqenta e tantos, e foi a que o 

conheci. Compreende-se o sentimento de discrio que me leva  a deixar a data no ar. 
  
  
III 
 
  No seminrio, dizia-nos o lente de retrica: 
  
  A teologia  a cabea do gnero humano, o latim a perna esquerda, e a retrica a 
perna direita. 
  
 Justamente da perna direita  que o Tefilo coxeava. Sabia muito as outras coisas: 
teologia, filosofia, latim, histria sagrada; mas a retrica  que lhe no entrava no crebro. 
Ele, para desculpar-se, dizia que a palavra divina no precisava de adornos. Tinha ento 
vinte ou vinte e dois anos de idade, e era lindo como So Joo. 
  
 J nesse tempo era um mstico; achava em todas as coisas uma significao 
recndita. A vida era uma eterna missa, em que o mundo servia de altar, a alma de 
sacerdote e o corpo de aclito; nada respondia  realidade exterior. Vivia ansioso de tomar 
ordens para sair a pregar grandes coisas, espertar as almas, chamar os coraes  Igreja, e 
renovar o gnero humano. Entre todos os apstolos, amava principalmente So Paulo. 
  
 No sei se o leitor  da minha opinio; eu cuido que se pode avaliar um homem 
pelas suas simpatias histricas; tu sers mais ou menos da famlia dos personagens que 
amares deveras. Aplico assim aquela lei de Helvetius: "O grau de esprito que nos deleita 
d a medida exata do grau de esprito que possumos." No nosso caso, ao menos, a regra 
no falhou. Tefilo amava So Paulo, adorava-o, estudava-o dia e noite, parecia viver 
daquele converso que ia de cidade em cidade,  custa de um ofcio mecnico, espalhando a 
boa nova aos homens. Nem tinha somente esse modelo, tinha mais dois: Hildebrando e 
Loiola. Daqui podeis concluir que nasceu com a fibra da peleja e do apostolado. Era um 
faminto de ideal e criao, olhando todas as coisas correntes por cima da cabea do sculo. 
Na opinio de um cnego, que l ia ao seminrio, o amor dos dois modelos ltimos 
temperava o que pudesse haver perigoso em relao ao primeiro. 
  
  No v o senhor cair no excesso e no exclusivo, disse-lhe um dia com brandura; 
no parea que, exaltando somente a Paulo, intenta diminuir Pedro. A Igreja, que os 
comemora ao lado um do outro, meteu-os ambos no Credo; mas veneremos Paulo e 
obedeamos a Pedro. Super hanc petram... 
  
 Os seminaristas  gostavam do Tefilo, principalmente trs, um Vasconcelos, um 
Soares e um Veloso, todos excelentes retricos. Eram tambm bons rapazes, alegres por 
natureza, graves por necessidade e ambiciosos. Vasconcelos jurava que seria bispo; Soares 
contentava-se com algum grande cargo; Veloso cobiava as meias roxas de cnego e um 
plpito. Tefilo tentou repartir com eles o po mstico dos seus sonhos, mas reconheceu 
depressa que era manjar leve ou pesado demais, e passou a devor-lo sozinho. At aqui o 
padre; vamos agora  dama. 
  
  

IV 
 
  Agora a dama. No momento em que os vi falar baixinho na igreja, Eullia contava 
trinta e oito anos de idade. Juro-lhes que era ainda bonita. No era pobre; os pais deixaram-
lhe alguma coisa. Nem casada; recusou cinco ou seis pretendentes. 
  
 Este ponto nunca foi entendido pelas amigas. Nenhuma delas era capaz de repelir 
um noivo. Creio at que no pediam outra coisa, quando rezavam antes de entrar na cama, e 
ao domingo,  missa, no momento de levantar a Deus. Por que  que Eullia recusava-os 
todos? Vou dizer desde j o que soube depois. Supuseram-lhe, a princpio, um simples 
desdm,  nariz torcido, dizia uma delas;  mas, no fim da terceira recusa, inclinaram-se 
a crer que havia namoro  encoberto, e esta explicao prevaleceu. A prpria me de Eullia 
no aceitou outra. No lhe importaram as primeiras recusas; mas, repetindo-se, ela 
comeou a assustar-se. Um dia, voltando de um casamento, perguntou  filha, no carro em 
que vinham, se no se lembrava que tinha de ficar s. 
  
   Ficar s? 
  
  Sim, um dia hei de morrer. Por ora tudo so flores; c estou para governar a casa; 
e voc  s ler, cismar, tocar e brincar; mas eu tenho de morrer, Eullia, e voc tem de ficar 
s... 
  
 Eullia apertou-lhe muito a mo, sem poder dizer palavra. Nunca pensara na morte 
da me; perd-la  era perder metade de si mesma. Na expanso de momento, a me atreveu-
se a perguntar-lhe se amava algum e no era correspondida; Eullia respondeu que no. 
No simpatizara com os candidatos. A boa velha abanou a cabea; falou dos vinte e sete 
anos da filha, procurou aterr-la com os trinta, disse-lhe que, se nem todos os noivos a 
mereciam igualmente, alguns eram dignos de ser aceitos, e que importava a falta de amor? 
O amor conjugal podia ser assim mesmo; podia nascer depois, como um fruto da 
convivncia. Conhecera pessoas que se casaram por simples interesse de famlia e 
acabaram amando-se muito. Esperar uma grande paixo para casar era arriscar-se a morrer 
esperando. 
  
  Pois sim, mame, deixe estar... 
  
 E, reclinando a cabea, fechou um pouco os olhos para espiar algum, para ver o 
namorado encoberto, que no era s encoberto, mas tambm e principalmente impalpvel. 
Concordo que isto agora  obscuro; no tenho dvida em dizer que entramos em pleno 
sonho. 
  
 Eullia era uma esquisita, para usarmos a linguagem da me, ou romanesca, para 
empregarmos a definio das antigas. Tinha, em verdade, uma singular organizao. Saiu 
ao pai. O pai nascera com o amor do enigmtico, do arriscado e do obscuro; morreu quando 
aparelhava uma expedio para ir  Bahia descobrir a "cidade abandonada". Eullia recebeu 
essa herana moral, modificada ou agravada pela natureza feminil. Nela dominava 
principalmente a contemplao. Era na cabea que ela descobria as cidades abandonadas. 
Tinha os olhos dispostos de maneira que no podiam apanhar integralmente os contornos 

da vida. Comeou idealizando as coisas, e, se no acabou negando-as,  certo que o 
sentimento da realidade esgarou-se-lhe at chegar  transparncia fina em que o tecido 
parece confundir-se com o ar. 
  
 Aos dezoito anos, recusou o primeiro casamento. A razo  que esperava outro, um 
marido extraordinrio, que ela viu e conversou, em sonho ou alucinao, a mais radiosa 
figura do universo, a mais sublime e rara, uma criatura em que no havia falha ou quebra, 
verdadeira gramtica sem irregularidades, pura lngua sem solecismos. 
  
 Perdo, interrompe-me uma senhora, esse noivo no  obra exclusiva de Eullia,  o 
marido de todas as virgens de dezessete anos. Perdo, digo-lhe eu, h uma diferena entre 
Eullia e as outras,  que as outras trocam finalmente o original esperado por uma cpia 
gravada, antes ou depois da letra, e s vezes por uma simples fotografia ou litografia, ao 
passo que Eullia continuou a esperar o painel autntico. Vinham as gravuras, vinham as 
litografias, algumas muito bem acabadas, obra de artista e grande artista, mas para ela 
traziam o defeito de ser cpias. Tinha fome e sede de originalidade. A vida comum parecia-
lhe uma cpia eterna. As pessoas do seu conhecimento caprichavam em repetir as idias 
umas das outras, com iguais palavras, e s vezes sem diferente inflexo,  semelhana do 
vesturio que usavam, e que era do mesmo gosto e feitio. Se ela visse alvejar na rua um 
turbante mourisco ou flutuar um penacho, pode ser que perdoasse o resto; mas nada, coisa 
nenhuma, uma constante uniformidade de idias e coletes. No era outro o pecado mortal 
das coisas. Mas, como tinha a faculdade de viver tudo o que sonhava, continuou a esperar 
uma vida nova e um marido nico. 
  
 Enquanto esperava, as outras iam casando. Assim perdeu ela as trs principais 
amigas: Jlia Costinha, Josefa e Mariana. Viu-as todas casadas, viu-as mes, a princpio de 
um filho, depois de dois, de quatro e de cinco. Visitava-as, assistia ao viver delas, sereno e 
alegre, medocre, vulgar, sem sonhos nem quedas, mais ou menos feliz. Assim se passaram 
os anos; assim chegou aos trinta, aos trinta e trs, aos trinta e cinco, e finalmente aos trinta 
e oito em que a vemos na igreja, conversando com o padre Tefilo. 
  
 
 
 
 
 V 
 
  Naquele dia mandara dizer uma missa por alma da me, que morrera um ano antes. 
No convidou ningum: foi ouvi-la sozinha. Ouviu-a, rezou, depois sentou-se no banco. 
  
 Eu, depois de ajudar  missa, voltei para a sacristia, e vi ali o padre Tefilo, que 
viera da roa duas semanas antes e andava  cata de alguma missa para comer. Parece que 
ele ouviu do outro sacristo ou do mesmo padre oficiante o nome da pessoa sufragada; viu 
que era o da tia e correu  igreja, onde ainda achou a prima no banco. Sentou-se ao p dela, 
esquecido do lugar e das posies, e falaram naturalmente de si mesmos. No se viam 
desde longos anos. Tefilo visitara-as logo depois de ordenado padre; mas saiu para o 
interior e nunca mais soube delas, nem elas dele. 

   
 J disse que no pude ouvir nada. Estiveram assim perto de meia hora. O coadjutor 
veio espiar, deu com eles e ficou justamente escandalizado. A notcia do caso chegou, dois 
dias depois, ao bispo. Tefilo recebeu uma advertncia amiga, subiu  Conceio e 
explicou tudo: era uma prima, a quem no via desde muito. O padre coadjutor, quando 
soube da explicao, exclamou com muito critrio que o ser parente no lhe trocava o sexo 
nem supria o escndalo. 
  
 Entretanto, como eu tinha sido companheiro do Tefilo no seminrio e gostava dele, 
defendi-o com muito calor e fiz chegar o meu testemunho ao palcio da Conceio. Ele 
ficou-me grato por isso, e da veio a intimidade de nossas relaes. Como os dois primos 
podiam ver-se em casa, Tefilo passou a visit-la, e ela a receb-lo com muito prazer. No 
fim de oito dias, recebeu-me tambm; ao cabo de duas semanas  era eu um  dos seus 
familiares. 
  
 Dois patrcios que se encontram em plaga estrangeira e podem finalmente trocar as 
palavras mamadas na infncia no sentem maior alvoroo do que estes dois primos, que 
eram mais que primos: moralmente eram  gmeos. Ele contou-lhe a vida e, como os 
acontecimentos acarretassem os sentimentos, ela olhou para dentro da alma do primo e 
achou que era  a sua mesma alma e que, em substncia, a vida de ambos era a mesma. A 
diferena  que uma esperou quieta o que o outro andou buscando por montes e vales; no 
mais, igual equvoco, igual conflito com a realidade, idntico dilogo de rabe e japons. 
  
  Tudo o que me cerca  trivial e chocho, dizia-lhe ele. 
  
 Com efeito, gastara o ao da mocidade em divulgar uma concepo que ningum 
lhe entendeu. Enquanto os trs amigos mais chegados do seminrio passavam adiante, 
trabalhando e servindo, afinados pela nota do sculo, Veloso cnego e pregador, Soares 
com uma grande vigararia, Vasconcelos a caminho de bispar, ele Tefilo era o mesmo 
apstolo e mstico dos primeiros anos, em plena aurora crist e metafsica. Vivia 
miseravelmente, costeando a fome, po magro e batina surrada; tinha instantes e horas de 
tristeza e de abatimento: confessou-os  prima... 
  
  Tambm o senhor? perguntou ela. 
  
 E as suas mos apertaram-se com energia: entendiam-se. No tendo achado um 
astro na loja de um relojoeiro, a culpa era do relojoeiro; tal era a lgica de ambos. Olharam-
se com a simpatia de nufragos,  nufragos e no desenganados,  porque no o eram. 
Crusoe, na ilha deserta, inventa e trabalha; eles no; lanados  ilha, estendiam os olhos 
para o mar ilimitado, esperando a guia que viria busc-los com as suas grandes asas 
abertas. Uma era a eterna noiva sem noivo, outro o eterno profeta sem Israel; ambos 
punidos e obstinados. 
  
 J disse que Eullia era ainda bonita. Resta dizer que o padre Tefilo, com quarenta 
e dois anos, tinha os cabelos grisalhos e as feies cansadas; as mos no possuam nem a 
maciez nem o  aroma da sacristia, eram magras e calosas e cheiravam ao mato. Os olhos  
que conservavam o fogo antigo, era por ali que a mocidade interior falava c para fora, e 

fora  dizer que eles valiam s por si todo o resto. 
  
 As visitas amiudaram-se. Afinal amos passar ali as tardes e as noites e jantar aos 
domingos. A convivncia produziu dois efeitos, e at trs. O primeiro foi que os dois 
primos, freqentando-se, deram fora e vida um ao outro; relevem-me esta expresso 
familiar:  fizeram um pique-nique de iluses. O segundo  que Eullia, cansada de 
esperar um noivo humano, volveu os olhos para o noivo divino e, assim como ao primo 
viera a ambio de So Paulo, veio-lhe a ela a de Santa Teresa. O terceiro efeito  o que o 
leitor j adivinhou. 
  
 J adivinhou. O terceiro foi o caminho de Damasco,  um caminho s avessas, 
porque a voz no baixou do cu, mas subiu da terra; e no chamava a pregar Deus, mas a 
pregar o homem. Sem metfora, amavam-se. Outra diferena  que a vocao aqui no foi 
sbita como em relao ao apstolo das gentes; foi vagarosa, muito vagarosa, cochichada, 
insinuada, bafejada pelas asas da pomba mstica. 
  
 Note-se que a fama precedeu ao amor. Sussurrava-se desde muito que as visitas do 
padre eram menos de confessor que de pecador. Era mentira; eu juro que era mentira. Via-
os, acompanhava-os, estudava esses dois temperamentos to espirituais, to cheios de si 
mesmos, que nem sabiam da fama, nem cogitavam no perigo da aparncia. Um dia vi-lhes 
os primeiros sinais do amor. Ser o que quiserem, uma paixo quarentona, rosa outonia e 
plida, mas era, existia, crescia, ia tom-los inteiramente. Pensei em avisar o padre, no por 
mim, mas por ele mesmo; mas era difcil, e talvez perigoso. Demais, eu era e sou 
gastrnomo e psiclogo; avis-lo era botar fora uma fina matria de estudo e perder os 
jantares dominicais. A psicologia, ao menos, merecia um sacrifcio: calei-me. 
  
 Calei-me  toa. O que eu no quis dizer, publicou-o o corao de ambos. Se o leitor 
me leu de corrida, conclui por si mesmo a anedota, conjugando os dois primos; mas, se  me 
leu devagar, adivinha o que sucedeu. Os dois msticos recuaram; no tiveram horror um do 
outro nem de si mesmos, porque essa sensao estava excluda de ambos, mas recuaram, 
agitados de medo e de desejo. 
  
  Volto para a roa, disse-me o padre. 
  
  Mas por qu? 
  
  Volto para a roa. 
  
 Voltou para a roa e nunca mais c veio. Ela,  claro que tinha achado o marido que 
esperava, mas saiu-lhe to impossvel como a vida que sonhou. Eu, gastrnomo e 
psiclogo, continuei a ir jantar com Eullia aos domingos. Considero que alguma  coisa 
deve subsistir debaixo do sol, ou o amor ou o jantar, se  certo, como quer Schiller, que o 
amor e a fome governam este mundo. 
 
 
 